Enfermagem de saúde da família e o exercício do respeito, sensibilidade e responsabilidade

Desde a implantação da Estratégia Saúde da Família (ESF) - um programa vinculado ao Ministério da Saúde -, o enfermeiro tomou a frente como peça indispensável pela melhoria de indicadores de saúde no Brasil. Isso inclui a diminuição da mortalidade infantil e mortalidade materna. Assim, tem-se uma iminente necessidade de formação de profissionais qualificados para atuar na área, e que desenvolvam as habilidades específicas, fortalecendo a atenção básica no País.

Na ESF, o enfermeiro desenvolve seu trabalho em duas frentes, na Unidade Básica de Saúde (UBS) e na comunidade. Ele apoia e supervisiona o trabalho dos agentes comunitários de saúde e do auxiliar de enfermagem, da mesma forma que assiste àqueles que necessitam de atendimento de enfermagem em domicílio.

Desde 1994, a ESF vem promovendo a qualidade de vida da população brasileira e intervindo nos fatores que colocam a saúde em risco, como a falta de atividade física, a má alimentação e o uso de tabaco. Com a atenção integral, equânime e contínua, a ESF se fortalece como via de acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS) e tem contribuído com a construção de um novo paradigma assistencial, estimulando a prática humanizadora e holística.

A proximidade da equipe de saúde com o usuário permite que se conheça a pessoa, a família e a vizinhança. Isso garante maior adesão desse usuário aos tratamentos e às intervenções propostas pela equipe de saúde. O fato gera um impacto direto na quantidade maior de problemas de saúde solucionados na Atenção Básica – cerca de 80%, não sendo necessário, portanto, intervenção de média e alta complexidades em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA 24h) ou hospital. É claro que, se fizer necessário um cuidado mais avançado, a ESF realiza o encaminhamento do paciente.

Atualmente, 95% dos municípios do País têm cobertura da enfermagem da ESF. Essas equipes multidisciplinares são responsáveis pelo desenvolvimento de ações de promoção à saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes.

Para que a ESF conquiste, cada vez mais, melhores resultados é imprescindível o trabalho em conjunto e integrado. Nessa força-tarefa merecem destaque os 33 mil enfermeiros e os 257 mil agentes comunitários de saúde (ACS) - profissionais que beneficiam mais de 192 milhões de pessoas.

Atribuições da enfermagem

Segundo o Ministério da Saúde, são algumas das atribuições do enfermeiro no âmbito do programa de agentes comunitários de saúde (PACS):

- planejar, gerenciar, coordenar e avaliar as ações desenvolvidas pelos agentes comunitários de saúde;

- supervisionar, coordenar e realizar atividades de qualificação e educação permanente dos agentes comunitários, com vistas ao desempenho de suas funções;

- facilitar a relação entre os profissionais da UBS e os agentes comunitários, contribuindo à organização da demanda referenciada;

- realizar consultas e procedimentos de enfermagem na UBS e, quando necessário, no domicilio e na comunidade;

- solicitar exames complementares e prescrever medicações, conforme protocolos ou outras normativas técnicas estabelecidas pelo gestor municipal ou do Distrito Federal, observadas as disposições legais da profissão; e

- organizar e coordenar grupos específicos de indivíduos e famílias em situação de risco da área de atuação dos agentes comunitários de saúde.

Quanto ganha

O site de empregos Vagas.com indica que, no cargo de Enfermeiro de Saúde da Família, o profissional inicia ganhando R$ 3.628,00 de salário e pode vir a receber até R$ 5.919,00. A média salarial para esse cargo de atuação no Brasil é de R$ 4.815,00.

Caso de sucesso

Natural de Floresta, no sertão pernambucano, o enfermeiro, Túlio Alves, ainda não possui décadas de profissão, mas em pouco tempo de conversa não é difícil perceber que ele vai longe. Na faculdade, ele encontrou o caminho, antecipou a conclusão da graduação para ingressar na Residência em Saúde da Família e, no próximo ano, se torna Mestre em Políticas Públicas.

A pouca idade não equivale ao extenso currículo desse morador de Recife: enfermeiro, professor, palestrante e empreendedor. Em entrevista exclusiva ao jornalismo do PGE – Instituto de Pós-Graduação em Enfermagem, Alves conta sobre as dificuldades de atuar com ESF, a importância de se especializar e de como a empatia e a humanização são fundamentais para esse cotidiano. Acompanhe a seguir.

PGE - Como foi sua formação?

Túlio Alves - Minha formação como enfermeiro foi de excelência. Estudei na Universidade Federal do Pernambuco (UFPE) e lá os professores eram muito capacitados, tanto teoricamente como na prática. Já estava fazendo pesquisa logo primeiro período. Em nosso curso, as práticas começavam no quarto período. Cada disciplina era um estágio, um conhecimento novo que, até hoje, me ajuda. Sabemos que existem algumas falhas, como melhores laboratórios e menos livros. Entrei na universidade em 2012. Deveria terminar o curso no primeiro semestre de 2017, porém antecipei a formatura por passar na Residência. Então, conclui no segundo semestre de 2016.

PGE - Em sua trajetória, por onde percorreu profissionalmente?

Túlio Alves - Assim que terminei o curso de bacharelado em enfermagem, passei na prova da Residência pelo Ministério da Saúde. Fui residente durante dois anos na área de Saúde da Família pelo Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP). Atuei na Unidade de Saúde da Família Coelhos I. Hoje sou enfermeiro da Unidade de Saúde da Agrodan, na cidade de Belém de São Francisco; docente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Facol (UNIFACOL), em Vitória de Santo Antão; e empreendedor na área de Enfermagem de Saúde Família.

PGE - Como sua formação contribuiu para você chegar onde você está atualmente?

Túlio Alves - Fazer a pós-graduação em Saúde da Família foi fundamental. Na graduação, aprendemos o básico sobre os programas que regem a saúde da família e realizamos poucas intervenções. Ter a especialização te faz enxergar diferente, te oferece maior autonomia e qualificação do trabalho perante a equipe e comunidade. Ser especialista em saúde da família é entender o processo da assistência e da gerência dentro da Atenção Básica. Vale salientar que o profissional com pós-graduação consegue maior estabilidade no local de trabalho só por não ser um profissional generalista.

PGE - Quanto uma pós-graduação pesa para que o profissional alcance sucesso em sua área?

Túlio Alves - A pós-graduação é o padrão ouro dos profissionais de saúde. Ela capacita especificamente para a área que você escolhe e faz com que você seja especialista naquela área, ou seja, um expert no assunto. Para o Ministério da Saúde, o enfermeiro da Saúde da Família com especialização na área é o mais capacitado para tal, desbancando os outros profissionais que não possuem especialidade na área.

PGE - Você se considera uma profissional de sucesso?

Túlio Alves - A palavra sucesso é algo muito subjetivo, depende do ponto de vista do que a pessoa queira alcançar. Não usaria a palavra sucesso e sim, realização. Sinto-me muito realizado pela área que escolhi. Tenho um bom emprego, trabalho com o que realmente escolhi fazer. 

Na época da graduação sempre tive aptidão para trabalhar com família e comunidade. Fiz residência na área e sou palestrante também, abordo todos os conteúdos trabalhados na saúde da família. Existe um fator determinante que me faz seguir cada dia mais realizado: é a forma de como se pode tocar na vida e na alma do outro. Isso é o impacto que nem se imagina. Durante esses quase três anos de Saúde da Família tive, e tenho, experiências que me fazem seguir essa caminhada. Para os meus amigos e as pessoas que me seguem eu sou um profissional de sucesso. Agradeço sempre.

PGE - A que você atribui seu sucesso profissional?

Túlio Alves – Atribuo à minha formação profissional da especialização. Sempre divulgo os trabalhos, as campanhas e atualizações no meu Instagram. Acredito que as redes sociais também me ajudaram, já que não sou tímido e sempre posto algumas curiosidades da área, novas informações, aulas rápidas para concurso e tiro muitas dúvidas das pessoas, amigos e conhecidos que me pedem. Inclusive, sempre pedem indicação de qual pós-graduação seguir e onde estudar. Isso me deixa muito feliz e realizado. Influenciar vidas por meio da educação é incrível.

PGE - De que maneira o seu perfil o levou à ascensão?

Túlio Alves - Na residência, a minha preceptora, a enfermeira, Jeorgia Costa, sempre comentava da minha energia, paciência, escuta, profissionalismo, empatia, humanização, humor, capacidade de aprender e sempre querer mais e de ter aptidão para trabalhar com família e comunidade. Acredito muito no que ela fala. O meu perfil é esse, e ainda acrescento: não sou tímido e corro atrás do que eu quero. Existe o lado cômico que também agrada muita gente. Sou perseverante e resiliente. Pois bem, esse perfil pode ajudar muita gente a chegar a lugares que nem você mesmo acredita.

PGE - Quais foram as suas principais motivações na sua trajetória?

Túlio Alves - Essa é a parte que passa um filme na cabeça. Eu me sentia perdido nas áreas que comecei a estudar. Foi em um estágio de um determinado curso que fazia que me fez conhecer a enfermagem. Eu percebi que gostava de contato com as pessoas, de cuidar. E assim fiz, tentei o vestibular de Enfermagem e consegui uma vaga na UFPE. Foram quatro anos e meio de estudo, muito esforço, privações e noites sem sono estudando para as provas e um sonho de ter uma vida melhor.

Nascer em uma cidade no sertão pernambucano, onde oportunidade de crescer era zero, família pobre, a sociedade local pouco acreditava no meu potencial... tinha tudo para ser um nada. Contrariando todas as estatísticas, fui e fiz meu nome. Eu tinha duas motivações, que eram ter um curso superior e viver do meu trabalho. Hoje, tenho tudo isso e ainda mais, vou ser mestre no meio do ano que vem. Tem coisa melhor? Quando me lembro de tudo que passei para chegar onde estou, agradeço muito a Deus e sempre tento ajudar a quem está por perto.

PGE - Quais foram seus principais desafios?

Túlio Alves - Me estabelecer no mercado de trabalho e receber um bom salário mediante o atual cenário do País. Quando terminamos a residência ou pós-graduação o que nos aflige é o desemprego. A enfermagem está saturada, há muitos profissionais no mercado, poucos postos de trabalho. A pós-graduação, sem dúvida, me fez adentrar os postos de trabalho. Recebi várias propostas para trabalhar na saúde da família. Uma pós de qualidade pode mudar seu rumo profissional. Além desse desafio, existe o de se capacitar sempre com pouco tempo. Para esse desafio sempre indico cursos livres. Acho o máximo.

PGE – E, de maneira geral, quais os desafios do cotidiano de um enfermeiro que atua com saúde da família?

Túlio Alves - O maior desafio da Saúde da Família é trabalhar com a fome, a pobreza, locais de moradia insalubre, falta de água, de saneamento básico, desnutrição. Tem outras e outras que poderia citar. Infelizmente, esses desafios fogem da minha ou da nossa governabilidade. Só por meio de políticas públicas que cheguem a quem realmente precisa é que iremos mudar essa realidade.

Eu sempre digo aos meus alunos ou aos gestores em reuniões: do que adianta falar de água tratada se eles não possuem rede encanada de água? Muitos podem até me criticar, mas a Saúde da Família consegue trabalhar métodos simples e eficazes nessas situações. Somos a ponta de todo e qualquer serviço da saúde desse País, somos a base. Um desafio macro da Saúde da Família é o subfinanciamento e destruição da política nacional da atenção básica.

PGE - Quais foram as suas principais conquistas?

Túlio Alves - Na área profissional, trabalhar na área que escolhi, ajudar a mudar a vida de pessoas, melhorar as condições de saúde do território em que trabalho, capacitar outros profissionais, o meu suado Mestrado em Políticas Públicas, saber que cuido de pessoas e elas são gratas por isso, ajudar a montar o serviço que trabalho e ser instrumento de perseverança na vida das pessoas como eu, que só precisavam de uma oportunidade. Na área pessoal: é o amor que tenho pela saúde da família e por meio do qual pago os famosos “boletos de cada dia”.

PGE - Quais são as dicas que você pode dar para quem está vislumbrando seguir por essa área?

Túlio Alves - Primeiro é não desistir. Essa palavra não existe no meu vocabulário. E fazer uma pós-graduação de qualidade, que te ofereça campo de estágio, que tenha professores de excelência na área, que dominem o conteúdo e que saibam passar. Tem que gostar de trabalhar com comunidade, de fazer visita domiciliar, de entender que medicação não é tudo, não ser tímido, não ter medo, ter amor, respeito, sensibilidade, carisma, responsabilidade e afeto. Ser humano e estar pronto para defender em qualquer circunstância seu território.

PGE – Gostaria de deixar outras considerações?

Túlio Alves - Sim. Trabalhar com Saúde da Família exige liderança e conhecimento de várias áreas de atuação. Para os enfermeiros, uma pós em Saúde da Família deve contemplar além das políticas, atribuições da sua profissão. Isso é um diferencial para quem quer ter sucesso.

Na minha visão de especialista existem dois tipos de pós em saúde da família, uma voltada para as políticas de saúde, que abrangem várias profissões; e outra que, além de ter as políticas de saúde, possuem áreas específicas da enfermagem, como por exemplo, saúde da criança (abordagem da puericultura), saúde da mulher (abordagem sindrômica) e obstetrícia (pré-natal).

Tags: Carreira Enfermagem

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