Enfermeiro oncológico e o exercício da empatia

Felizmente, já é possível comemorar os grandes avanços que a oncologia tem conquistado, principalmente, nas técnicas terapêuticas e de diagnóstico. Essa evolução tem permitido a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes com câncer. Para um tratamento ser realizado com êxito é necessário um trabalho em equipe, formada por profissionais das variadas áreas da saúde, entre os quais, o enfermeiro... e não podia ser diferente!

A ele cabe o papel de atuar em ações de prevenção e controle. O enfermeiro presta assistência a pacientes com câncer na avaliação diagnóstica, no tratamento, na reabilitação e, ainda, atende aos familiares desses pacientes em situação tão delicada.

A imersão do enfermeiro no trato do paciente oncológico exige conhecimentos, habilidades e responsabilidades, como em qualquer outra função, mas aqui há o dever de contemplar aspectos físico, emocional, social e espiritual.

O câncer carrega o estigma da morte. É associado à dor e ao sofrimento, e é nesse contexto de batalha pela vida que a enfermagem deve estabelecer estratégias de enfrentamento, com vistas a uma assistência adequada e eficaz ao paciente, minimizando, não só o sofrimento dele, mas também de seus familiares.

O enfermeiro é o membro da equipe de saúde que permanece mais tempo com o paciente, ou seja, do diagnóstico até as várias fases do tratamento, como a cirurgia, a radioterapia, a terapêutica medicamentosa e a quimioterapia. Um enfermeiro oncológico tem, por obrigação, conhecer características, sinais e sintomas, tipos de tratamento, efeitos colaterais de drogas e, é claro, os cuidados de enfermagem que podem ser prestados. É um profissional essencial na recuperação do doente.

Além de prestar atendimento humanizado, o enfermeiro oncológico precisa de flexibilidade, corresponsabilidade, partilha de sentimentos, conhecimentos e solidariedade. A oncologia é uma área muito específica e, portanto, é imprescindível que os enfermeiros tenham formação de especialista na área e que estejam em constante atualização.

De acordo com a RDC 220/04, que aprova o Regulamento Técnico de funcionamento dos Serviços de Terapia Antineoplásica e a resolução do Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) 210/98, que regulamenta a atuação dos profissionais de enfermagem em quimioterapia, são competências do enfermeiro, entre outros: planejar, organizar, supervisionar, executar e avaliar todas as atividades de enfermagem, em clientes submetidos ao tratamento quimioterápico antineoplásico, categorizando-o como um serviço de alta complexidade, alicerçados na metodologia assistencial de enfermagem; elaborar protocolos terapêuticos de enfermagem na prevenção, tratamento e minimização dos efeitos colaterais em clientes submetidos ao tratamento, e realizar consulta baseada no processo de enfermagem direcionado a clientes em tratamento quimioterápico antineoplásico.

As regulamentações também conferem ao profissional assistir, de maneira integral, aos pacientes e suas famílias, tendo como base o Código de Ética dos profissionais de enfermagem e a legislação vigente; ministrar quimioterápico antineoplásico, conforme farmacocinética da droga e protocolo terapêutico; promover e difundir medidas de prevenção de riscos e agravos por meio da educação dos clientes e familiares, objetivando melhorar a qualidade de vida do paciente, e manter a atualização técnica e científica da biossegurança individual, coletiva e ambiental que permita a atuação profissional com eficácia em situações de rotinas e emergenciais, visando interromper ou evitar acidentes ou ocorrências que possam causar algum dano físico ou ambiental.

O enfermeiro oncologista é um elo fundamental no tratamento multidisciplinar dos pacientes com câncer. O jornalismo do PGE – Instituto de Pós-Graduação em Enfermagem foi ouvir uma profissional que há, praticamente, três décadas se dedica ao cuidado do outro. Maria Aparecida Machado é mineira de Conceição dos Ouros. Há 20 anos na capital paulista, ela conta à reportagem desde o inicio da carreira como técnica de enfermagem até a consolidação profissional, reconhecida como referência em sua área de atuação e trabalhando em um dos maiores e melhores hospitais do País. Acompanhe.

PGE - Como foi sua formação para chegar à enfermeira especialista em oncologia?

Maria Aparecida Machado - Eu me formei técnica de enfermagem em 1989, pela Escola de Enfermagem Johnson e Johnson. Fiz graduação em Enfermagem pela Faculdade de Santa Marcelina (FASM), na qual conclui em 2010, ou seja, tenho de profissão 29 anos, mas de enfermeira formada tenho nove anos. Quando conclui a faculdade eu já trabalhava em terapia intensiva. Trabalhei e trabalho até hoje em um hospital de grande porte e referência no País, então, fiz especialização em Terapia Intensiva pelo Centro Universitário São Camilo.

Quando finalizei minha especialização em terapia intensiva, houve uma reestruturação na instituição em que eu trabalhava e surgiu uma oportunidade de ser enfermeira júnior na oncologia, e fui transferida para aquela área, já bastante desenvolvida para as questões técnicas de pacientes graves, porém sem muito conhecimento em oncologia. Foi quando fui fazer especialização para essa especialidade. Na área eu tive muitas oportunidades. Eu fiz preceptoria – era responsável pela preceptoria da Residência de Enfermagem. Também fiquei responsável pelo estágio extracurricular, o que me desenvolveu muito para a atuação como enfermeira oncológica.

Paralelo a isso eu comecei a ministrar aulas na graduação, na pós-graduação e para o curso técnico. Eu abraçava todas as oportunidades para o ensino e, então, fui fazer docência.

PGE - Em sua trajetória, por onde percorreu profissionalmente?

Maria Aparecida Machado - Fiquei três anos trabalhando na oncologia e, em seguida, surgiu a oportunidade para participar de um processo para enfermeira sênior na responsabilidade social do hospital referência onde trabalho. Passei e fui estruturar o serviço de oncologia naquela unidade, onde estou até hoje.

Quando cheguei naquele novo serviço, eu já possuía as especializações de UTI, docência e era também especialista em oncologia. Fui estruturar, capacitar pessoas, pensar em fluxos e processos de enfermagem e, há três anos, fui promovida a especialista em oncologia.

Em minha trajetória eu comecei trabalhando como técnica de enfermagem. Trabalhei na Santa Casa de São José dos Campos, na Unidade de Terapia Intensiva. Trabalhei no hospital PIO XII, em unidade coronariana. Trabalhei no Hospital São Francisco de Assis, como técnica de enfermagem na UTI neonatal, pediátrica e adulto e de lá, em 2002, fui para esse hospital de grande porte.

Aqui trabalhei até 2010 na UTI, quando segui para a oncologia, onde me desenvolvi, como falei anteriormente, fazendo preceptoria da residência, preceptoria do curso técnico em enfermagem, sendo referência para os pacientes e profissionais da oncologia.

Em 2014 fui convidada para fazer a estruturação de um serviço de oncologia na Responsabilidade Social, que é onde atuo até hoje. Cheguei como enfermeira sênior e, atualmente, ocupo a vaga de especialista de enfermagem, mas também faço gestão de pessoas.

PGE - Como sua formação e qualificação contribuíram para você chegar onde está?

Maria Aparecida Machado - Eu sou fruto de todas as minhas especializações, eu sou fruto da minha formação. Eu busquei, fui atrás de competências, de conceitos e me desenvolvi. Ao longo dos anos, eu fui permeando entre as áreas até chegar ao cargo de especialista em oncologia, mas eu sou fruto das minhas competências desenvolvidas e adquiridas ao longo dos anos.

PGE - Quanto uma pós-graduação pesa para que o profissional alcance sucesso em sua área?

Maria Aparecida Machado - Eu fiz três pós-graduações - em Terapia Intensiva, Docência e Oncologia. É necessário ir em busca de conhecimento e de bases teóricas para fazer associação com a prática. A sua pós-graduação precisa estar associada com aquilo que você faz todos os dias para que se faça um link entre teoria e prática. Acredito que eu fiz as especializações em um momento em que precisava de conceitos que me norteassem para a prática.

PGE - Você se considera uma profissional de sucesso?

Maria Aparecida Machado - Super me considero uma profissional de sucesso! Tenho muito orgulho de minha trajetória. Formei-me em 2010, fui promovida a enfermeira júnior em 2011, em 2013 fui promovida à enfermeira pleno, em 2015 fui promovida a sênior, em 2018 fui promovida à especialista. Desde minha formação eu tive uma carreira bastante estruturada.

PGE - Ao que você atribui seu sucesso profissional?

Maria Aparecida Machado - Ao meu interesse, à minha dedicação, à minha busca contínua por conhecimento. A estratégia utilizada entre prática e conceito é procurar sempre “estou vendo isso”, “vou aplicar desta forma” e “vou melhorar isso”. Acho que dedicação é a palavra e a busca pelo conhecimento contínuo.

PGE - De que maneira o seu perfil a levou à ascensão profissional?

Maria Aparecida Machado - Acredito que minha ascensão profissional não foi por uma causa única. Foram vários fatores. Primeiro a identificação com a área com a qual você está se dedicando, busca por conhecimento é outro fator. Faço um trabalho diferenciado, baseado em conceitos muito concretos, mas pensando em humanização. Você trabalha com oncologia, além de alta tecnologia no cuidado, medicações de última geração, você precisa entender com o paciente o que realmente importa para ele. Empatia, trabalho humanizado e competência técnica...tudo junto!

PGE - Quais foram seus principais desafios profissionais?

Maria Aparecida Machado - Trabalhar num hospital de grande porte, que tem plano de carreira e precisar estar sempre em busca de conhecimento, ser um profissional atualizado, em busca contínua. Há sempre um plano de desenvolvimento esperando. Receber feedbacks contínuos e entender que você tem sempre um pouco a melhorar são fundamentais. Isso é amadurecimento profissional. Pensar que todas as suas ações são para um conhecimento melhor para se prestar uma assistência melhor para o seu paciente. O seu foco é sempre o paciente. Uma assistência segura com o paciente está no centro do cuidado.

PGE – E, de maneira geral, quais os desafios do cotidiano de um enfermeiro oncologista?

Maria Aparecida Machado - São tantos... o enfermeiro de oncologia acompanha o paciente do diagnóstico ao fim da vida, ele está presente no momento do diagnóstico e precisa orientar, navegar com o paciente, fazer orientações sobre exames de imagem para estadiamento, como vai ser feito, qual é o preparo etc. Depois disso, uma vez com o resultado do exame, ele precisa encaminhar o paciente ao tratamento, acompanha-lo e dar orientações especificas a respeito de efeitos colaterais de quimioterapia, radioterapia, se a quimioterapia será endovenosa, via oral, se ela é concomitante com radioterapia ou não, quais são os principais efeitos colaterais, quais são os seus cuidados.

Nós precisamos fazer a manutenção dos registros, para que aquilo que se fez esteja registrado por questões legais, mas também para que se busque um indicador de que se está prestando um melhor cuidado.

O paciente, quando se agrava por algum efeito colateral, quando ele vai para a internação, o enfermeiro precisa saber cuidar e identificar urgências e emergências oncológicas. Ele tem que estar apto ao cuidado de emergência, tanto no serviço de internação como em uma Unidade de Terapia Intensiva, como num Posto de Atendimento Oncológico, e gerar dados. Um dos desafios do enfermeiro em oncologia é a geração de dados.

O desafio de trabalhar em uma equipe interdisciplinar também é um fator importante porque o paciente oncológico precisa do fisioterapeuta, da fonoaudióloga, do terapeuta ocupacional, do psicólogo, do médico, do assistente social etc. É uma integração de conhecimentos. O enfermeiro de oncologia é um multiplicador. É ele quem faz a interface com as outras equipes.

Além de tudo, ele precisa estar capacitado para ser multiplicador de conhecimento, treinamento de novos profissionais para a área e precisa saber lidar com o fim da vida. A empatia é fundamental. O enfermeiro de oncologia está presente do diagnóstico ao fim da vida. Empatia é a palavra-chave. O enfermeiro precisa se perguntar, todos os dias, o que realmente importa para aquele paciente.

PGE - Quais foram as suas principais conquistas?

Maria Aparecida Machado - Minha principal conquista é ser reconhecida como uma enfermeira de referência na oncologia hoje. O conhecimento norteou a minha conduta durante toda a minha trajetória. Eu passei por todas as fases, fui técnica de enfermagem, fui enfermeira júnior, pleno, sênior e segui numa carreira em Y, que é a carreira do especialista. Mesmo dentro dessa carreira de especialista, faço gestão de pessoas, mas, para mim, a minha maior conquista é ser reconhecida pelos meus pacientes, pelos meus pares, pela minha liderança como enfermeira referência em oncologia.

PGE - Quais são as dicas que você pode dar para quem está vislumbrando seguir por essa área?

Maria Aparecida Machado - Estudar. Estudar sempre. Penso que precisa estar respaldado, precisa saber do que está falando. O conhecimento dá norte às condutas. Estudando, você vai ser uma pessoa melhor, um profissional melhor e vai prestar uma melhor assistência. As oportunidades de carreira vão aparecer, ou melhor, o mercado de trabalho é muito competitivo e, nele, quem vence é o melhor, quem está mais preparado!

Tags: Carreira Enfermagem, UTI, enfermeiro oncologista

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