Atendimento clínico de urgência e emergência no ambiente pré-hospitalar

Acidentes envolvendo traumas no trânsito, envenenamento, afogamento, quedas, queimaduras e violências em geral compõem as demandas que as equipes de enfermagem de urgência e emergência estão habituadas a atender. Para a assistência mais ágil e eficaz nessas situações foi inaugurado, nos anos de 1990, no Rio de Janeiro e São Paulo, o que se chama de Atendimento Pré-Hospitalar (APH). A partir disso, o modelo passou a ser adotado nos anos seguintes pelos demais Estados do País.

O objetivo do APH é, justamente, atender e estabilizar as vítimas de forma eficaz e rápida, com uma equipe preparada para atuar em qualquer ambiente e remover o paciente para uma unidade hospitalar. Desde 2002 o Ministério da Saúde reconhece a efetividade de serviços que realizam o APH.

O enfermeiro das equipes de APH trabalha em conjunto com outros profissionais, como médicos, e lidera a equipe de enfermagem composta por auxiliares e técnicos de enfermagem. Por essa razão é imprescindível que o enfermeiro que escolhe essa área tenha, além de competências técnicas, qualidades de líder e que saiba trabalhar em equipe.

“Com relação às competências do enfermeiro em APH, tais atividades variam conforme o serviço em que atua, por exemplo, bombeiros, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Grupo de Resgate e Atendimento às Urgências (GRAU) etc.”, explica o enfermeiro assistencial de Pronto Socorro em São Paulo, Fábio de Oliveira. Ele comenta que, em linhas gerais o enfermeiro supervisiona e lidera as atividades de enfermagem em ambiente pré-hospitalar, presta cuidados de enfermagem de aspecto técnico de média e alta complexidades em pacientes com ou não risco iminente de morte, faz o controle da qualidade dos serviços de enfermagem, além de, quando solicitado por instituições de saúde ou de educação, ministrar cursos na área de APH para profissionais ou leigos interessados ou até para empresas.

Já o enfermeiro pós-graduado em Centro Cirúrgico e Centro de Material Esterilizado, Gabriel Diniz, lembra: “O APH ocorre nas mais variadas situações e locais. Pode ocorrer na rua, no ambiente de trabalho ou em casa. Então, uma equipe se direciona ao local, geralmente de ambulância, para fazer o socorro. Esse tipo de atendimento é importante e deve ser feito por uma equipe qualificada, pois é necessário se obter respostas rápidas frente a situações que colocam o paciente em risco iminente de morte, ou seja, acidente de trânsito, engasgo, tentativa de suicídio, uso de drogas, brigas, traumatismo cranioencefálico, enfim, são vários casos que podem levar o usuário ao óbito e a situações de urgência e emergência”.

Diniz reitera que a equipe de enfermagem tem que saber lidar com cada uma das mais variadas situações que envolvem APH, e deve saber como proceder para que os profissionais da saúde não causem mais problemas àquele paciente que já está em risco. É preciso qualidade de assistência no atendimento.

Intervenção rápida

Oliveira relata que o APH se caracteriza pelo atendimento de vítimas em locais habituais, como em casa ou em vias públicas, antes da chegada da mesma no hospital: “Situações adversas como acidentes em rodovias, mal súbitos em residências – convulsões, casos de Acidente Vascular Encefálico (AVE) e parada cardiorrespiratória, por exemplo, exigem uma rápida intervenção para a recuperação da saúde da vítima, não existindo tempo hábil para que ela seja levada até o setor hospitalar para atendimento”. Por essa razão, ele ressalta que é necessário que as equipes de atendimento pré-hospitalar estejam cada vez mais qualificadas e treinadas, e que os protocolos estejam funcionantes para que o atendimento a essa vítima aconteça da forma mais rápida possível.

“O Atendimento Pré-Hospitalar é fundamental para garantir a vida em muitos casos e diminuir o número de sequelas e complicações para o paciente, tornando as informações e o tipo de acidente e assistência prestada à vítima no local ocorrido essencial para o início do tratamento hospitalar”, conta a enfermeira, Jacione Moreira.

Já a enfermeira especialista em Urgência e Emergência com ênfase em APH  e Terapia Intensiva na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Sírio-libanês, em São Paulo, Iara Cristine Bueno, enfatiza que a partir do atendimento clínico de urgência e emergência em ambiente pré-hospitalar é possível saber sobre as comorbidades que o paciente possui e como elas podem influenciar no seu atendimento.

“O APH é destinado a todos os pacientes que passam por uma situação de emergência fora do hospital, geralmente vítimas de acidentes traumáticos em geral. O profissional da enfermagem é a pessoa que mais participa dos atendimentos em APH, uma vez que o médico atua somente em casos que necessitam de intervenções específicas”, diz Iara.

Enfermeiro é o protagonista

O enfermeiro assume posição de protagonismo no APH e de responsabilidade pela assistência prestada às vítimas. Não se trata de atendimentos apenas com restrição de espaços físicos e nos mais diversos ambientes. São situações de limite de tempo que exigem decisões imediatas. O enfermeiro atuante em APH precisa, obviamente, de muita habilidade, de estar bem treinado e ter competência no trato com o paciente, mas também precisa de preparo para encarar adversidades que não são detectadas no âmbito da enfermagem hospitalar.

Oliveira descreve: “O fluxo do APH começa com a ligação do usuário para a central, 192 ou 193, descrevendo o motivo da solicitação e informando o local onde é necessário o atendimento. Neste momento, a central de regulação procura buscar o maior número de informações para enviar a equipe com os recursos mais adequados para aquela demanda, podendo variar entre equipes básicas, as de enfermagem ou avançadas, aquelas com presença de médico. Em casos mais graves, um médico poderá assumir a ligação para que a pessoa que está ligando para o atendimento já inicie alguns procedimentos antes mesmo de a equipe chegar ao local. Hoje em dia, em diversos Estados, existe um atendimento por motocicleta onde a chegada ao local é mais rápida, dependendo do caso a ser atendido. Geralmente é um técnico de enfermagem ou enfermeiro que realiza esse atendimento”.

Segundo Oliveira, porém, há um empecilho para essa modalidade de atendimento: “Os serviços de APH no Brasil são subutilizados ou mal utilizados devido à falta de educação da população. Não por culpa do indivíduo, mas porque a informação correta não chega até ele como deveria chegar”.

O SAMU, por exemplo, é o serviço clínico de APH mais eficaz em casos de problemas cardiorrespiratórios, envenenamentos, queimaduras, acidentes com traumas e vítimas ou suspeita de infarto ou AVE, entretanto, muitas vezes, o serviço é chamado para casos como febre, vômitos, trocas de sonda – casos não urgentes ou emergentes, ou até mesmo em casos de quedas em bueiros ou incêndios, em que o corpo de bombeiros deveria ser acionado, de acordo com Oliveira.

“Segundo dados estatísticos do SAMU/SUS, a maior incidência de atendimentos é de casos de acidentes de trânsito com trauma, em sua maioria, causados por motos, ferimentos por arma branca ou de fogo e em seguida por maus súbitos domiciliares ou em vias públicas, como convulsões e dores torácicas. Contudo, em minha prática em receber os casos trazidos pelo SAMU – uma vez que trabalho em um Pronto Socorro Municipal – o serviço também é bastante acionado para moradores de área livre que não estavam se sentindo bem, usuários que tiveram dores torácicas em casa e quadros convulsivos”, relata Oliveira.

Atribuições

Já o enfermeiro assistencial na Unidade de Pronto Atendimento Bom Jardim e Coordenador do Setor de Quimioterapia do Instituto do Câncer do Ceará, Victor Nogueira, explica que a presença do enfermeiro em APH está disposta na resolução 375/2011, do Conselho Federal de Enfermagem (COFEN): “Segundo essa resolução, algumas das principais atribuições do enfermeiro são: prestar cuidados de enfermagem de qualquer complexidade técnica a pacientes com ou sem risco de morte, que exijam conhecimentos científicos adequados e capacidade de tomar decisões imediatas; supervisionar e avaliar as ações de enfermagem da equipe no atendimento Pré-Hospitalar Móvel; fazer controle de qualidade do serviço nos aspectos direcionados a pessoas e equipamentos inerentes à profissão, estabelecendo e controlando indicadores”.

No Brasil o APH está estruturado em duas categorias, o Suporte Básico à Vida (SBV) e o Suporte Avançado à Vida (SAV). O primeiro relaciona-se com a preservação da vida do paciente sem a realização de procedimentos invasivos, onde o atendimento é feito por profissionais treinados em primeiros socorros e sob supervisão médica. Já o segundo modelo, é caracterizado por procedimentos de maior complexidade, realizados exclusivamente por médicos e enfermeiros.

Protocolo de atendimento

Sobre protocolo de atendimento, Oliveira diz que “em geral o protocolo utilizado é o PreHospital Trauma Life Support (PHTLS), para uma avaliação inicial geral do estado da vítima, seguido de outros protocolos de acordo com essa avaliação, como os protocolos da American Heart Association (AHA) quando em casos de problemas cardiovasculares, como parada cardiorrespiratória”.

“Para atuar em APH, além da formação acadêmica ou técnica, é necessário especialização para médicos e enfermeiros, bem como os cursos de certificações internacionais”, esclarece Iara.

Nogueira diz: “os cursos para enfermeiros mais recomendados para APH e conhecidos pela sua qualidade são os Life Support (LS), Basic Life Support (BLS), Advanced Life Support (ACLS), Pré-Hospital Life Support (PHTLS) e Pediatric Advanced Life Support (PALS)”. E a enfermeira Jacione completa que “a última atualização de manobras realizadas no APH pela ATLS foi feita no ano passado”.

Para Diniz, os desafios do APH estão nos custos dos treinamentos, que são elevados: “O profissional tem que buscar atualização constante, o protocolo muda bastante, geralmente de ano em ano está atualizando alguma coisa, então, é imprescindível que o profissional tenha uma educação continuada. Existem também cursos para situações de resgaste aeromédico, resgaste em selva, entre outros”, conta.

“Vale ressaltar que, em 2014, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), emitiu um parecer que obriga a presença do enfermeiro em ambulâncias de suporte básico, o que movimentou o mercado no sentido de aperfeiçoar as equipes, que muitas vezes antes eram compostas apenas por condutor e técnico de enfermagem”, esclarece Oliveira.

Para Nogueira, “infelizmente, é importante frisar, a grande quantidade de ligações indevidas e trotes que são realizados para a central de atendimento 192. É importante que a população se conscientize da importância do serviço para que pessoas que realmente estão necessitando de atendimento tenham uma resposta efetiva e, dessa forma, a equipe possa obter uma melhora do tempo-resposta de atendimento, afinal tempo é vida”.

“É função de todo profissional de saúde essa educação da população quanto aos serviços de urgência e emergência existentes no Brasil”, conclui Oliveira.

Tags: Profissão Enfermagem, Atendimento Pré-Hospitalar, Urgência e Emergência, SAMU

Atendimento

Atendimento de segunda a sexta-feira,
das 08:00 às 18:00 horas.

Telefones:

  • 0800 003 7744
  •  

     

Endereço

Escritório administrativo - Goiás

Rua Benjamin Constant, nº 1491, Centro, Anápolis - GO.

CEP: 75.024-020

Escritório administrativo - São Paulo

Rua: Haddock Lobo, n° 131, Sala: 910, Cerqueira César.

CEP: 01414-001 , São Paulo -SP.

Fale conosco

Botão Pós Graduação Responsivo

Agenda de Cursos - Inscrições Abertas