Conheça a realidade e os desafios de uma enfermeira obstétrica

A reponsabilidade não é das mais simples: contribuir para trazer crianças à vida ao mesmo passo em que soma esforços para garantir a saúde da gestante durante a gravidez e após o parto. Essa é a função do enfermeiro obstétrico. Para quem não se lembra, historicamente, esse momento único na vida das mulheres era feito em casa, com a ajuda de parteiras. Contudo, a partir da primeira metade do século XX, foi intensificada a hospitalização do parto e esse profissional passou a figurar entre os protagonistas desse instante.

De acordo com dados da Agência Nacional de Saúde (ANS), cerca de 85% dos partos na rede privada são cesarianas e 40% na rede pública. Muitas vezes, essa intervenção cirúrgica ocorre de maneira desnecessária e causa transtornos às puérperas. Só no Brasil, a cesárea foi realizada em 58% dos partos, de 2000 a 2015. A Organização Mundial de Saúde (OMS) propõe que o ideal seria 10% a 15% dos nascimentos por meio de cirurgia.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) diz que a assistência à gestante, o acompanhamento do trabalho de parto e a execução do parto sem distocia estão entre as atribuições dos enfermeiros generalistas, enquanto integrantes das equipes de saúde, conforme o artigo 11 da Lei 7.498/86. Os enfermeiros obstétricos, especialistas em parto normal, têm autonomia profissional na assistência, conforme o artigo 9º, do decreto 94.406/87.

Enfermeiros obstétricos são o apoio da gestante no trabalho de parto, principalmente quando a escolha é o parto normal. Eles são considerados o suporte essencial para que a mulher fique à vontade e segura. É um profissional que necessita de um olhar apurado de enfermagem para compreender o que a gestante precisa naquele momento, de forma a colaborar para que ela se sinta confiante.

Promover a humanização da relação médico-paciente, ao longo do período gestacional e no momento do parto, faz parte da rotina da enfermeira obstétrica da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Adriana dos Passos Bento.

Ela se formou em Enfermagem em 1991, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), e começou a carreira de imediato em um Centro de Tratamento Intensivo (CTI) cirúrgico. Não demorou a perceber que aquela não era a realidade profissional que desejara para si e, antes que pudesse desistir, acabou se encontrando em outro setor. Em entrevista ao jornalismo do PGE – Instituto de Pós-Graduação em Enfermagem, Adriana fala como se tornou enfermeira obstétrica e os desafios da área, e sugere o que, de fato, é importante considerar. Acompanhe.

PGE – Como foi a sua formação?

Adriana dos Passos Bento – Sou graduada em Enfermagem pela UERJ e me habilitei em médico-cirúrgico. Em 1992, fiz especialização em Enfermagem do Trabalho e, depois, em 1997, eu fiz a especialização em Enfermagem Obstétrica. Vim me qualificando nas questões de preceptoria, porque eu sempre gostei de dar aulas em universidades.

PGE – Por onde percorreu profissionalmente?

Adriana dos Passos Bento – Quando me formei, o meu primeiro trabalho foi na área de CTI cardíaco até 1995, que foi quando eu me decepcionei com a enfermagem. Eu tinha feito um concurso público... assim, o momento crucial da minha carreira foi quando eu ia desistindo e passei por esse concurso e, por proximidade e não por afinidade, eu vim para a maternidade. Então, eu tive a oportunidade de conhecer a enfermagem obstétrica, que era uma parte que eu não tinha muita afinidade.

Eu gostava muito da questão de ser intensivista. Por proximidade com meu trabalho aqui na maternidade uma colega me deu a oportunidade de receber uma bolsa de estudos na especialização, e fui para a UERJ estudar. Lá, eu fui percebendo que eu comecei a gostar e, desde então, não mais abandonei essa carreira que, hoje, me sustenta tanto mentalmente como espiritualmente, porque é algo meio que de Deus mesmo. Em 2012, eu também passei em outro concurso público no Rio de Janeiro, pela Secretaria Municipal de Saúde, e hoje eu tenho as duas matrículas aqui na mesma maternidade.

Na minha trajetória profissional, essa qualificação me fez ficar com as duas atribuições na maternidade, Fernando Magalhães, situada no bairro São Cristóvão. Assim, eu fico em sala de parto e também no pré-natal, atendendo às mulheres e aos bebês. Além disso, fico no plantão noturno atendendo às mulheres nas suas necessidades, tanto na sala de parto, no seu acompanhamento de trabalho, como em outras necessidades também, porque nós temos mulheres que podem ter complicações. E, por ser qualificada na questão intensivista, eles me aproveitam na UTI materna.

Na minha trajetória, eu oportunizei dar aulas de graduação em algumas universidades privadas, a Plinio Leite, a Unisuan e a Estácio de Sá, todas aqui no Rio de Janeiro. Atualmente, também pela minha própria qualificação, eu sou preceptora, ou seja, eu acompanho alunos de residência de enfermagem, especializados em Enfermagem Obstétrica da Estácio de Sá.

É bastante trabalho, é bastante responsabilidade. Essas questões são de alto grau de responsabilidade, que é algo que eu gosto. Parei de dar aulas, neste momento, porque isso exige, nas universidades, o mestrado. Hoje a minha meta é fazer o mestrado profissional para que eu continue nessa ascensão da minha carreira, apesar dos meus 53 anos. Acho que nós só paramos de estudar quando nós morrermos. É o meu pensamento.

PGE – O que um profissional precisa ter para seguir na carreira em enfermagem obstétrica?

Adriana dos Passos Bento – Eu penso que ele tem que ter muita intuição, ajuda de Deus e um conhecimento que não é empírico, é um conhecimento que a própria faculdade e os livros vão proporcionando. A experiência, as mulheres vão te dando, já que os partos vão proporcionando esse feeling... é também a intuição de Deus mesmo na conduta que você vai traçar.

Eu digo que as coisas que incentivam a traçar uma boa conduta é o que vem da intuição do parto. Somado a isso, o seu conhecimento - que a universidade, a faculdade traz - os livros e a boa concentração é o que nós chamamos de bom senso obstétrico. É uma hora que você tem que parar e indicar para que o médico que está ali, seu companheiro de equipe, possa também intervir e agir, porque eu vou até o parto normal. Do parto normal, se não evoluir, uma boa cesariana bem indicada salva mãe e bebê.

Para uma carreira de enfermagem obstétrica é preciso um curso de especialização ou residência em enfermagem obstétrica.

PGE – Você tem algum grande sonho ou desejo de realização profissional no momento?

Adriana dos Passos Bento – Como mencionei, quero fazer um mestrado para que eu possa dar aulas. Eu tenho 24 anos atuando nessa maternidade, porque eu entrei em novembro de 1995, mas eu digo que eu não sei nada, e o meu grande sonho é aprender cada vez mais fazendo, porque só erra quem faz e é nos erros que se aprende.

Meu grande sonho é aprender cada vez mais. A vida é assim. A cada dia, a cada momento, é importante estar com pessoas que sejam uma fonte de conhecimento para haver uma troca. Eu devo ter, em minha vida, uns 6 mil partos, o que é pouco, porque cada parto é como se fosse sempre o primeiro. É com eles que eu aprendo.

Se alguém disser que sabe tudo, certamente, será um grande tolo. Apesar de estar formada há um bom tempo - me formei em 1991 -, eu digo que não sei nada. Estamos sempre aprendendo. Por isso eu gosto do aluno, porque ele faz uma pergunta e, se você não souber a resposta, terá de dizer: “eu não sei essa resposta, posso te dar depois?”. Nesse caso, será fundamental ler algo novo, o que estará te renovando.

O mundo é dinâmico e contemporâneo, e sempre vai trazer alguma notícia nova, vai te renovar, te instigar para que você busque a resposta. Por isso, ser preceptora e estar, sempre, estudando são coisas que me instigam.

PGE – Você se considera um profissional de sucesso?

Adriana dos Passos Bento – Eu acho que sim. O sucesso é para Deus. O sucesso é ver as pessoas felizes. Só isso. O sucesso só vai depender do que você alcançar com o êxito da sua ação. O êxito, o sucesso, só será verdadeiro quando você disser: deu tudo certo. Não é um agradecimento que me faz feliz, é o êxito das ações. É um desconhecido sorrir para mim e é aquele bebê chorar ou aquela vida sobreviver em função das minhas ações. Todos os dias eu vejo uma vidinha com o êxito das minhas ações.

PGE – Quais são as suas principais conquistas?

Adriana dos Passos Bento – Minhas conquistas são o reconhecimento das minhas pacientes, das pessoas que saem felizes com seus bebês nas mãos, daquela vidinha que se ajudou a colocar no mundo, daquela mulher que sobreviveu numa UTI materna. Não tem conquista melhor no coração do que isso. Felicidade é deitar a cabeça no travesseiro e perceber que o melhor foi dado.

PGE – Quais foram seus principais desafios profissionais?

Adriana dos Passos Bento – Foi me vencer, porque quando eu quis desistir da minha profissão, Deus falou “não, você tem aí um desafio maior que era vencer a si mesma”. Desistir da enfermagem eu não desisti. O meu desafio maior talvez seja eu chegar aonde eu quero chegar, estudar um pouquinho mais, aprender um pouquinho mais.

PGE – E, de maneira geral, quais são os desafios da enfermagem obstétrica?

Adriana dos Passos Bento – Os desafios na minha área estão relacionados com sensibilizar as pessoas a não se mercantilizarem demais. As pessoas, na área da enfermagem obstétrica, estão se tornando muito mercantilistas na questão do parto humanizado, domiciliar. Elas só querem ganhar dinheiro com isso. Elas não querem só ver a sensibilização no âmbito da mulher e do bebê. No parto humanizado se cobra R$ 10 mil, R$ 15 mil, R$ 20 mil. Eu acho que o caminho não é por aí. É preciso evitar que a enfermagem obstétrica seja algo mercantilizado.

PGE – Quais são as dicas que você pode dar para quem está começando no mercado?

Adriana dos Passos Bento – Não buscar esse viés comercial da enfermagem. É preciso buscar o aprendizado sem a mercantilização da coisa. Vale buscar a sensibilização e o bom senso obstétrico. É fundamental ter o conhecimento de fato, não apenas da questão empírica. Não se pode esquecer o que é ser enfermeiro.

Queria dizer para as pessoas que estão, nesse momento, fazendo parto humanizado que é preciso ter bom senso humanizado também. Ser enfermeiro é não se esquecer de que existe uma mulher e um bebê por trás disso. Vamos nos lembrar de que há uma mulher que pode estar querendo outra coisa, um ouvindo mais atento. Nem tudo o que vira moda é bom para a mulher. É só prestar mais atenção.

Tags: Carreira Enfermagem, Gestante, Enfermagem obstétrica

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