Interpretação de exames laboratoriais pelo enfermeiro

De imediato, muitos podem estranhar, mas de estranho não há nada: faz parte das rotinas de um enfermeiro a interpretação de exames laboratoriais – e antes disso a prescrição desses exames. Tudo isso, é claro, acontece dentro do que a legislação estabelece para o desempenho desse profissional.

A Lei 7.498/86, também conhecida como a lei do exercício profissional de enfermagem, estabelece essas diretrizes e corrobora para legitimar o trabalho do enfermeiro. Exames laboratoriais são responsáveis pelo fornecimento do estado de saúde do paciente, auxiliam na avaliação de diagnósticos clínicos, fornecem o monitoramento do tratamento que deve ser realizado e, consequentemente, o prognóstico, ou seja, a indicação de uma possível doença.

A enfermagem, quer seja hospitalar, ambulatorial ou domiciliar, está presente efetivamente no tratamento do paciente, tanto os que já foram diagnosticados com alguma patologia, como aqueles em boas condições de saúde que buscam acompanhamento médico regularmente. É fundamental que o enfermeiro seja conhecedor da assistência correta prestada ao paciente no que concerne aos exames laboratoriais, que são, em outras palavras, instrumentos de avaliação, acompanhamento e prevenção no tratamento das pessoas.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen), por meio da Resolução 195, de 18 de fevereiro de 1997, regulamentou a solicitação de exames de rotina e complementares pelo enfermeiro, quando no exercício de suas atividades profissionais, para uma efetiva assistência ao paciente, por meio da consulta de enfermagem, pautada nos programas do Ministério da Saúde.

A consulta de enfermagem foi legitimada como prática exclusiva do enfermeiro com a aprovação da Lei 7.498, de 25 de junho de 1986. Posteriormente, essa consulta foi regulamentada por meio da Resolução Cofen 159, de 19 de abril de 1993, tendo como fundamento os princípios de universalidade, equidade, resolutividade e integralidade.

Para realizar uma consulta de enfermagem o enfermeiro precisa estar preparado para atender às demandas do paciente, aceitando seus valores, lembrando que ele faz parte de um núcleo familiar e que é um ser holístico constituído de corpo, mente e espírito. É importante lembrar que a saúde é resultado de necessidades humanas atendidas e a doença se trata das necessidades humanas básicas afetadas.

Diversos pesquisadores concordam que, para uma interpretação correta dos resultados de exames, são necessários conhecimentos básicos e clínicos, uma vez que, os padrões de assistência estabelecem exigências mínimas para a prática profissional, incluindo-se o conhecimento básico de exames laboratoriais de forma a entender as terminologias, o propósito, os valores, os resultados normais do teste, a história e a avaliação na identificação de situações que podem afetá-lo, como, por exemplo, a gravidez e o diabetes.

Ampla atuação

“O enfermeiro é um profissional que está presente em todas as fases da vida, e dentro do serviço de saúde ele é o único profissional que tem respaldo de exercer todas as funções de enfermagem, sendo cabidas a ele algumas atribuições privativas, ou seja, aquelas que o técnico não pode executar. Com relação a exames laboratoriais, o enfermeiro é respaldado a fazer todas as ações, então, ele prepara, orienta e coleta alguns exames. Nesse caso, vai depender do tipo de exame, pois existem os que só podem ser coletados pelo bioquímico ou pelo médico, mas os que são respaldados ao enfermeiro ele pode coletar”, conta o enfermeiro com MBA em Docência e Metodologia do Ensino Superior, atuante na Secretaria Municipal de Saúde do município de Feliz Natal (MT), Wiglaney Bezerra.

Segundo o enfermeiro, pós-graduando em Urgência e Emergência na cidade de Paripiranga (BA), Rone Oliveira, a coleta de exames laboratoriais de pacientes em regime de internação e em situação ambulatorial nos laboratórios de análises clínicas é uma atividade que a enfermagem desenvolve e que contribui para a promoção, manutenção e recuperação da saúde.

Nesse setor, a atuação da enfermagem está assegurada pela Portaria CVS-01/00, do Centro de Vigilância Sanitária, que trata das condições de funcionamento dos laboratórios de análises clínicas, patologia clínica e congênere e pela Resolução Cofen 146/92, que preconiza a presença e responsabilidade de um enfermeiro nos locais onde existem ações de enfermagem sendo executadas.

Quem também contribui para se entender a atuação desses profissionais no que se refere aos exames laboratoriais é a enfermeira especialista em Terapia Intensiva e atuante em UTI adulto no município de Maricá (RJ), Jennifer Honorato. “Há uma atuação bem ampla, na atenção básica dentro dos protocolos do Sistema Único de Saúde (SUS), em que o enfermeiro é apto a avaliar, prescrever e analisar exames. Isso acontece muito no pré-natal de risco habitual, acompanhando, assim, na maioria das vezes, pacientes de baixo risco ou crônicos. Já na parte hospitalar, o enfermeiro tem o dever de conhecer e saber julgar uma gama de exames, para pautar a sua prescrição de cuidados neste julgamento”, diz.

Jennifer usa como exemplo um paciente que chega com dor torácica, entra num protocolo para clarear a origem da dor, são colhidos exames e, se a dor for de origem pulmonar, não irá apresentar marcadores de lesão miocárdica – no coração, os cuidados de enfermagem terão esse direcionamento, para um paciente com dor torácica de origem pulmonar.

Porém, se a pessoa apresentar alteração, a causa for cardíaca, um infarto, este paciente precisa poupar o esforço até que esteja em uma condição segura, isso inclui caminhar, realizar força para evacuar, atividades básicas. Com isso são geradas várias ações de enfermagem para auxiliar a manutenção da estabilidade do quadro clínico. Esse plano de cuidados vem da interpretação do enfermeiro. Paralelamente, o médico prescreve a terapia medicamentosa, exames de imagem e afins. “As terapias funcionam muito melhor quando associadas, pois são complementares, assim como as profissões”, garante a enfermeira.

Atenção à legislação

“A Lei 7.498/86 é a que regulamenta o exercício profissional da enfermagem. Essa lei respalda o enfermeiro em seu inciso 2º, do artigo 11, a realizar consulta de enfermagem, procedimentos, solicitar exames complementares, prescrever medicações conforme os protocolos e diretrizes clínicas e terapêuticas. Dessa forma, o enfermeiro está respaldado legalmente em solicitar exames. De acordo com a legislação, nós verificamos que é legal o ato de prescrição de medicação e solicitação de exames laboratoriais pelo enfermeiro. Uma vez que ele solicita, ele tem fundamento para interpretar. Como ele vai solicitar algo que não sabe interpretar? O enfermeiro detém conhecimento científico e o técnico detém a técnica, ele sabe fazer uma injeção e o enfermeiro tem de saber o porquê fazer aquela injeção”, explica Bezerra.

Segundo ele, essas rotinas que envolvem solicitação e interpretação de exames por parte de enfermeiros precisam estar de acordo com a legislação do Conselho Federal de Enfermagem e, não menos importante, precisam ser rotinas aprovadas pela instituição de saúde onde esse profissional trabalha, ou seja, o fato de um enfermeiro estar trabalhando em determinado município não autoriza que ele solicite, interprete exames e prescreva medicação. O município onde ele está alocado precisa ter essa rotina aprovada também, precisa ter uma portaria, uma legislação autorizando o enfermeiro para tal.

Etapas de um exame

O Regulamento Técnico para Funcionamento de Laboratórios Clínicos descrito pela RDC 302, de 13 de outubro de 2005, descreve as fases envolvidas no processo de coleta, análise e resultado de exames laboratoriais. “Além da enfermagem estar envolvida na fase pré-analítica, por meio do fornecimento de informações precisas sobre a realização do exame ao paciente e coleta do material para análise, o enfermeiro também está habilitado a solicitar e interpretar exames de rotina e complementares, no contexto da consulta de enfermagem, em programas de saúde do SUS em consonância com as normativas e protocolos do Ministério da Saúde e referendados por protocolos aprovados pela direção técnica da instituição de saúde ou gestor local”, reitera Oliveira.

Nas situações de ausência temporária do médico, os resultados dos exames solicitados poderão ser analisados pela equipe multiprofissional com vistas a avaliar alterações e permitir os encaminhamentos necessários. Oliveira destaca que, dependendo do resultado, o enfermeiro pode tomar algumas decisões para reverter ou amenizar o processo de saúde-doença. O enfermeiro pode prescrever cuidados - como orientações para mudanças no estilo de vida e hábitos alimentares - que irão contribuir para a saúde do paciente, bem como orientar a busca por um profissional médico.

As fases envolvidas em todo o processo de exames laboratoriais são a pré-analítica, que compreende o pedido do exame, preparação do paciente, cadastro, coleta e transporte; analítica, quando são realizadas, de fato, as análises do material coletado; e a pós-analítica, que tem como papel a verificação das análises realizadas na fase analítica, bem como o envio do resultado ao médico e, por fim, a tomada de decisão.

“A enfermagem é muito importante na fase pré-analítica, pois é a parte que mais ocorrem erros no exame. A enfermagem atua fornecendo orientações ao paciente, como tempo de jejum, alimentação e uso de medicamentos capazes de interferir no resultado, bem como na coleta do material biológico para o exame. Na fase analítica é necessário que o profissional supervisione os instrumentos, reagentes, estabilidade da amostra, além da monitoração de todos os processos. Já na etapa pós-analítica o enfermeiro poderá fazer a interpretação dos exames, comunicando todos os achados ao paciente, bem como tomar decisões a partir dos resultados encontrados”, descreve Oliveira.

De acordo com Jennifer, essa divisão em fases é meio ‘didática’, porque geralmente é um processo muito fluido. Numa consulta pré-natal, por exemplo, uma gestante é acompanhada e num simples EAS – exame de urina, ela pode apresentar proteinúria. Esse dado laboratorial muda tudo, porque ela passa a ser gestante de alto risco, já que a proteinúria tem forte relação com a pré-eclâmpsia, que é uma condição aguda na gravidez.

Nesse caso é necessário referenciá-la ao profissional médico para a solicitação de mais exames, controle medicamentoso e afins. “No entanto, antes que o resultado seja comunicado à gestante é necessário explicar a importância desse exame e as decisões que serão tomadas a partir dos resultados, ou seja, educação em saúde. Já num contexto hospitalar, o enfermeiro geralmente é o profissional que recebe os exames, devendo avaliá-los para elaborar seu plano de cuidados”, salienta ela.

Condutas diferentes para resultados diferentes

No que diz respeito à conduta do enfermeiro diante de determinados tipos de resultados de exames, tudo depende do que será atestado nesse resultado. Se a rotina é aprovada no município, em algumas situações o enfermeiro vai poder prescrever, porque o Conselho Federal, o Ministério da Saúde tem suas portarias que autorizam. “Dependendo do resultado, a conduta será diferente, e até a conduta médica, muitas vezes, muda. Se o paciente precisa de uma assistência especializada para um oncologista, e aquele médico viu que ali tem um diagnóstico possível de um onco e ele não vai poder tratar, ele vai encaminhar. Diante disso, a conduta do enfermeiro também será diferenciada para cada exame. Em alguns casos ele vai encaminhar, em outros ele vai poder prescrever, vai conduzir o paciente diante da situação”, assegura Bezerra.

Dificuldades

Para Oliveira, dificulta a atuação do enfermeiro com a interpretação de exames principalmente o fato de as pessoas acharem que só o médico pode interpretar um exame, e acabam não mostrando os exames aos enfermeiros. Ele fala também que se leva em consideração a dificuldade que o enfermeiro enfrenta, visto que durante sua graduação, não é um assunto muito abordado. Este fator é evidenciado de forma igualitária na opinião da enfermeira Jennifer. “A dificuldade maior é a mercantilização do curso de enfermagem, em que muitas instituições se preocupam em abreviar o tempo do aluno na universidade, o que tem um forte reflexo na categoria profissional. Em outras palavras preocupam-se com a quantidade de alunos, mas não com a qualidade deles. Isso acaba restringindo várias habilidades dos egressos”, chama a atenção.

Exigências

Sobre os conhecimentos necessários que o enfermeiro precisa ter para interpretar um exame, Jennifer é enfática. “Precisa saber de tudo, mas, principalmente, fisiologia, farmacologia e patologia. Esses são os pilares que sustentam esse tipo de interpretação. A formação de nível superior deveria preparar o profissional para tal, no entanto devido à mercantilização da educação há um déficit expressivo. Algumas pós-graduações são marcadas fortemente pelos exames laboratoriais – obstetrícia, cardiologia, terapia intensiva, entre outras. Nessas especializações é imprescindível o aprofundamento nesses dados, porém todo enfermeiro deveria ter esta habilidade”, relata ela.

Oliveira indica que o enfermeiro pode fazer uma pós-graduação em ‘Interpretação de exames laboratoriais para profissionais da saúde’ para se aperfeiçoar e estar mais apto para a tarefa. “É de extrema importância para o enfermeiro saber interpretar um exame, pois, por meio dele podemos traçar metas e tomar condutas para a reversão do quadro em que o paciente se encontra. Com essa especialização na área, o enfermeiro estará mais seguro para realizar mais tarefas, evitando, assim, condutas errôneas com o paciente”, ressalta.

Tags: interpretação de exames, consulta de enfermagem, enfermagem hospitalar

Atendimento

Atendimento de segunda a sexta-feira,
das 08:00 às 18:00 horas.

Telefones:

  • 0800 003 7744
  •  

     

Endereço

Escritório administrativo - Goiás

Rua Benjamin Constant, nº 1491, Centro, Anápolis - GO.

CEP: 75.024-020

Escritório administrativo - São Paulo

Rua: Haddock Lobo, n° 131, Sala: 910, Cerqueira César.

CEP: 01414-001 , São Paulo -SP.

Fale conosco

Botão Pós Graduação Responsivo

Agenda de Cursos - Inscrições Abertas