Não somos anjos!

Certa vez uma professora da graduação me disse que a Enfermagem é a ciência e a arte do cuidar. Esta frase é inspirada no conteúdo do livro Processo de Enfermagem, da Dra. Wanda A. Horta, publicado pela primeira vez em 1979.

Pois bem! Sempre fiquei intrigado com essa afirmativa, me perguntando o quanto eu sou cientista e o quanto sou artista do cuidar? Depois de muitos anos na assistência, em especial nos serviços de urgência e emergência, percebi que somos artistas mesmo! Somos operários em uma indústria que de tudo tem um pouco: tecnologias caras, equipamentos sofisticados, medicamentos de ponta e especialistas das mais diversas áreas. Mas, temos também seringas, agulhas, equipos, medicamentos básicos, mobiliário hospitalar, entre outros tantos.

E, para completar o rol, temos também as necessidades humanas básicas dos pacientes que, não raro, não conseguimos suprir com essas tecnologias e instrumentos. E agora? Como resolver esse problema? É exatamente neste momento que nos tornamos artistas, inovando, improvisando, dando um jeito para que o paciente esteja bem cuidado.

Por conta de todas essas tecnologias e insumos que estamos consumindo diuturnamente, nos tornamos, cada vez mais, dependentes do saber (conhecimento) e da arte (literalmente, do jeitinho brasileiro). E, aliado a tudo isso, nos últimos cem anos o mundo evidenciou a maior explosão tecnológica e do saber jamais vista em toda a história. Com isso, processos demorados e trabalhosos se tornaram rápidos e menos dependentes da manufatura.

Obviamente que isso tem implicações profundas na sociedade como um todo e, por que não dizer, nas relações de trabalho. Os trabalhadores, em especial os da enfermagem, têm sido percebidos cada vez mais objetivos e mecânicos em seu processo de trabalho, buscando a eficiência a todo custo para que possa produzir cada vez mais cuidado.

Refletindo sobre o assunto, só consigo chegar à conclusão de que a superexposição a estímulos e a necessidade de se produzir cada vez mais, demandando cada vez menos tempo, tem feito de nós seres quase autômatos, reféns do relógio e com uma profunda necessidade de absorver mais e mais informações (conhecimento) para que seja possível dar conta do tanto a se fazer em tão pouco tempo (como diria o coelho branco do conto de Alice no País das Maravilhas).

Enquanto a sociedade é assolada por notícias veiculadas da violência urbana, familiar, contra negros, contra homossexuais, de gênero, xenofóbica, obstétrica, entre outras, não percebo nenhum movimento das autoridades e da sociedade quanto a um tipo de violência que cresce de maneira velada dentro da sociedade e, em especial, na enfermagem. Trata-se da Violência do Saber!

Nos dias atuais, você dizer que “não sabe” de algum assunto é inaceitável. Ainda mais quando temos o Google que, metaforicamente falando, é um oráculo disponível a todo tempo na palma da mão, com saberes disponíveis sobre os mais diversos assuntos. Ou seja, estamos, gradativamente, nos tornando dependentes do saber, do conhecimento.

E, na medida em que avançamos rumo ao desconhecido, mais dependentes nos tornamos. Preocupa-me pensar que os profissionais da Enfermagem têm se tornado mais empenhados em executar técnicas e utilizar tecnologias da maneira correta do que CUIDAR, efetivamente, da pessoa que está sendo atendida.

Literalmente, o ser humano tem sido deixado de lado. Certa vez um colega me falou que estava envergonhado, pois havia se apegado emocionalmente a uma senhora idosa que estava sob seus cuidados e, quando ela faleceu, ele não resistiu e chorou enquanto preparava o corpo para ser entregue à família. Disse a ele que deveria ficar envergonhado se fosse incapaz de sentir algo naquele momento de perda. Afinal, somos seres humanos, não máquinas.

Alguns dirão para aquele profissional que não demonstra nenhuma emoção: Que coração de gelo! Porém, ninguém está disposto a refletir sobre o que levou aquele profissional a agir daquela forma.

Como disse o personagem Capitão Nascimento, no filme Tropa de Elite, “o sistema é cruel, parceiro!”. Enquanto tivermos um sistema de saúde em que prevaleça o perfil economicista das relações de trabalho, veremos o solapamento das relações de trabalho na Enfermagem e, consequentemente, teremos mais e mais profissionais se tornando insensíveis e até psicologicamente doentes.

O sistema Cofen/Conselhos Regionais tem lutado ,por mais de vinte anos, pela valorização profissional e por uma jornada de trabalho e remuneração dignas. Tudo isso para que o profissional não se torne dependente de buscar novos meios, muitas vezes se sobrecarregando de trabalho para suprir as suas necessidades humanas e sociais.

O sistema tem lutado ainda para que a sobrecarga de trabalho e a necessidade de absorver tantos saberes interfiram em suas relações interpessoais dentro da equipe de saúde, com seus pacientes, bem como com seus familiares.

“Que enfermeira estúpida!”. “Essa enfermeira aí foi educada por um jumento”. “Vá aprender a ter educação, sua enfermeira ignorante”. Essas são algumas frases que se repetem em unidades assistenciais ao se referirem aos profissionais da Enfermagem. Tudo isso por conta do endurecimento e embrutecimento dos profissionais, dado os motivos elencados anteriormente.

Isso é justificativa? Entendo que não. Mas, havemos de considerar que, como disse Newton em sua terceira lei, “toda ação tem sempre uma reação oposta, de igual intensidade”. Quer dizer que o paciente ou o acompanhante tratam mal os profissionais? Nem sempre! Porém, nas relações de trabalho, existem o consumidor e o bem a ser consumido (no caso em tela, a assistência de enfermagem). Logo, percebemos que, com a sobrecarga de trabalho e o que chamamos de violência do saber, o profissional se sente agredido pelo processo de trabalho (pela relação de consumo) e não por um indivíduo em especial. Daí, temos o endurecimento e o embrutecimento do profissional.

Raramente deparamos unidades assistenciais que valorizam o profissional e seu processo de trabalho de modo a se ter uma valorização do ser e do saber. O que comumente evidenciamos são unidades superlotadas onde os gestores, e os próprios profissionais querem apenas esvaziar os leitos e diminuir as filas.

É claro que este texto trata apenas de algumas reflexões de um profissional que atua há mais de 20 anos nos serviços de saúde, e tem visto de tudo acontecer durante seus plantões. E reconhece que para reverter esta situação, há a necessidade de se empoderar politicamente a Enfermagem de maneira tal que tenha força institucional para que os gestores se sintam impelidos a lembrar que o profissional da Enfermagem é ser humano, trabalhador e que tem limitações. Afinal de contas, não somos anjos!

Areski Peniche é presidente do Conselho regional de Enfermagem do Acre (Coren-AC), enfermeiro, especialista em Adm. Hosp. e Gestão de Sistemas de Saúde e especialista em Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde. É formado pela Universidade Federal do Acre, foi gerente de Enfermagem do Hospital de Urgência e Emergência de Rio Branco (HUERB), é professor no curso de graduação em Enfermagem e atuou como enfermeiro assistencial em Viatura de Suporte Avançado, no SAMU.

Tags: Enfermagem Clínica, Profissão Enfermagem, Carreira Enfermagem

Atendimento

Atendimento de segunda a sexta-feira,
das 08:00 às 18:00 horas.

Telefones:

  • 0800 003 7744
  •  

     

Endereço

Escritório administrativo - Goiás

Rua Benjamin Constant, nº 1491, Centro, Anápolis - GO.

CEP: 75.024-020

Escritório administrativo - São Paulo

Rua: Haddock Lobo, n° 131, Sala: 910, Cerqueira César.

CEP: 01414-001 , São Paulo -SP.

Fale conosco

Botão Pós Graduação Responsivo

Agenda de Cursos - Inscrições Abertas