Violência na saúde: uma epidemia silenciosa

Existe uma epidemia na saúde que é invisível aos olhos da sociedade. Eu não estou me referindo à dengue ou à gripe, tampouco à febre amarela. Eu me refiro aos cerca de 80% de profissionais de enfermagem que sofrem ou já sofreram agressão durante o exercício profissional. Esta realidade é considerada uma epidemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS)  e traz sérias consequências à assistência oferecida nas instituições. 

Este dado alarmante foi revelado por uma sondagem  que realizamos entre os inscritos do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP), em agosto de 2018, e que contou com a participação de 4.107 entrevistados. Entre aqueles que afirmaram já terem sofrido violência no local de trabalho, 66% foram vítimas de agressão praticada por pacientes, acompanhantes ou seus familiares. Os motivos mais recorrentes estão relacionados ao atendimento na instituição (demora para atendimento e filas para exames e consultas) e à estrutura, como falta de medicamentos, leitos ou profissionais. 

O que isso significa? Que os trabalhadores da enfermagem estão sendo penalizados pela má gestão e subfinanciamento da saúde. Os usuários descontam naqueles que estão na linha de frente do atendimento a sua insatisfação com os serviços, o que configura uma grande injustiça social. De fato, a população é uma vítima que sofre com a privação de um direito básico e constitucional, que é o acesso à saúde integral. Porém, a enfermagem não pode ser responsabilizada por uma realidade que está muito além de suas competências profissionais. 

A pesquisa que realizamos também revelou dados alarmantes sobre a falta de preparo das instituições de saúde e ausência de fluxos de acolhimento e proteção às vítimas. Entre os participantes que sofreram violência, 60% afirmaram que o seu local de trabalho não possui políticas de apoio aos agredidos. A falta de amparo se torna um obstáculo à denúncia e isso gera um cenário de subnotificação, conforme mostra a sondagem: 77% não denunciaram a violência sofrida. Entre os motivos estão a falta de apoio, a sensação de impunidade, o medo de perder o emprego e o receio de uma nova agressão. Já entre os que denunciaram, mais de 60% revelam não ter tido qualquer resultado. 

A situação traz prejuízos inestimáveis para a vida dos profissionais e para a qualidade da assistência, ocasionando altas taxas de absenteísmo e presenteísmo, decorrentes do esgotamento emocional, psicológico e físico dos trabalhadores e, consequentemente, prejuízos ao atendimento. 

Esta gestão do Coren-SP, a qual tenho muito orgulho de conduzir, não passará indiferente à tal realidade. Lançamos mais uma edição da campanha “Violência Não Resolve”, visando conscientizar a sociedade sobre a importância do respeito e solidariedade em relação aos profissionais de saúde. Não obstante, também estamos focando nas autoridades. Protocolei um ofício na Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, solicitando uma reunião para mostrar os dados da nossa pesquisa e reivindicar a implantação de políticas públicas que garantam a proteção e acolhimento das vítimas. 

Também reformulamos a dinâmica da fiscalização, atividade-fim do Coren-SP. Estamos avançando na implantação do dimensionamento adequado das equipes de enfermagem por meio do diálogo e cobrança de medidas que façam com que as instituições garantam a segurança dos pacientes e as condições de trabalho para a enfermagem, além das oficinas realizadas pelos nossos fiscais. 

Não nos curvaremos perante o desmonte do SUS e o tratamento dos serviços de saúde como mercadoria. Seguiremos denunciando as políticas ineficientes de gestão e o subfinanciamento, pois o Coren-SP, assim como a enfermagem, defende a consolidação dos princípios básicos do SUS, que são a integralidade, a universalidade e a equidade. 

A partir desta triste realidade revelada pela sondagem do Conselho, faço um apelo à sociedade e órgãos governamentais: vamos focar os nossos esforços e indignação na luta por uma saúde digna para todas e todos. A enfermagem e demais categorias de profissionais são aliados da população na construção de uma assistência de qualidade e universal. Esse é o nosso compromisso e missão. Estamos juntos!

*Renata Pietro é enfermeira graduada pela Faculdade de Medicina de Marília (FAMEMA). Especialista em Nefrologia, Epidemiologia Hospitalar e Educação em Saúde pela Unifesp. Fundadora e membro efetiva da Associação Brasileira de Enfermagem em Terapia Intensiva (ABENTI). Ex-Presidente do Departamento de Enfermagem da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (AMIB) (2009-2010 / 2010-2011). Mestre e Doutora pela UNIFESP. Foi diretora do Núcleo de Terapia Intensiva do Hospital do Servidor Publico Estadual de São Paulo (HSPE).

Tags: Enfermagem Clínica, Profissão Enfermagem, Conselho Regional de Enfermagem

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